Conversa inevitável

     A I. tinha-nos convidado para um jantar em sua casa com a grupeta do costume. Era Domingo e por isso fui mais cedo para ir à eucaristia. Terminou a missa, fui ao meu carro e conduzi até à casa da I. Cheguei, toquei à campainha e a I. veio abrir-me a porta. Levou-me para a cozinha e, para meu espanto, tu já lá estavas. Confesso que achei muito estranho. Tu nunca chegas antes da hora. Normalmente és sempre o último a chegar. Estavam os dois na cozinha a fazer sumo de romã. Achei tudo muito estranho. Notava-se que estavam desconfortáveis com a minha presença. Se calhar estavam a falar de mim antes de chegar, não sei. 

    Passados poucos minutos chegaram o C., a F. e a O. Sentia-me triste. Não gostei de vos ver juntos antes do jantar. Ao longo do jantar não falei muito e isso notou-se. A certa altura a I. perguntou-me se estava bem. Respondi que sim mas que estava cansada. A I. encheu de imediato o meu copo com vinho tinto (Esteva) dizendo que era disso que eu precisava. A verdade é que fui bebendo e fui-me soltando. No entanto, o meu coração continuava magoado. Sabia que não conseguiria ir para casa sem falar contigo. Tinha tantos pensamentos e dúvidas na cabeça. 

    O jantar terminou. Sai de casa da I. contigo e com a O. Entrámos os três no elevador, despedimo-nos e foste levar a O. a casa. Assim que entrei no carro, enviei-te uma mensagem a dizer para me ligares assim que deixasses a O. em casa e estivesses sozinho. Poucos minutos depois ligaste-me. Sinceramente pensei que não me ligarias. Atendi e pedi-te pra voltares ao estacionamento da casa da I. Saí do meu carro e fui para o outro lado da estrada de forma a que quando chegasses pudesse entrar logo no teu carro. Chegaste rápido. Abri a porta do teu carro e entrei. Perguntei-te se tinhas alguma coisa para fazer ou alguma coisa marcada para aquela hora e respondeste que tinhas apenas de ir dormir e riste-te. Pedi-te para me levares para um sitio mais calmo e com menos movimento. Assim no fizeste. O caminho foi em total silêncio. Nenhum de nós disse alguma palavra. Levaste-nos para o estacionamento da Igreja Paroquial. Paraste o carro e enfrentei-te. Virei-me de lado e olhei-te diretamente nos olhos e perguntei-te porque não me respondias a nenhuma mensagem. O teu olhar entristeceu-se, isso foi muito visível, e respondeste-me que há algum tempo que tomaste a decisão de não responder a mensagens. Apenas respondes a coisas urgentes e do momento. Baixaste a cabeça e disseste que não conseguias chegar a todos. Percebi perfeitamente o que querias dizer e também o meu coração se entristeceu.

De seguida perguntei-te se tinhas lido a minha mensagem de ano novo. Disseste "mais ou menos" e eu perguntei "como assim mais ou menos?". Qualquer pessoa que recebe uma mensagem daquelas iria lê-la até ao fim com toda a certeza. Não me respondeste e pediste-me para te ler o que tinha escrito. Entrei em pânico! Não estava pronta para aquilo! Não conseguia dizer-te tudo aquilo frente a frente. O meu coração estava acelerado e a minha boca estava seca. Apenas consegui dizer que não era capaz. Tu incentivaste-me e disseste que querias que te lesse a mensagem porque é muito diferente ouvir a minha entoação. Não conseguia acreditar. Disse novamente que não era capaz e meti o meu telemóvel nas tuas mãos. Voltaste a pedir para te ler e passaste-me o telemóvel. 

Engoli em seco. Respirei fundo e olhei para o ecrã do telemóvel. Ainda não acreditava que te ia ler aquelas palavras que tinha escrito dias antes. Eram palavras muito profundas, intimas que vinham do fundo do meu coração. Concentrei-me, arranjei coragem e comecei a ler. A voz tremia e as minhas mãos estavam suadas. Nunca me interrompeste. Custou-me muito, foi mesmo muito dificil. Recordo-me de fazer muitas pausas para suspirar e arranjar coragem para continuar a ler. Finalmente terminei. Olhei para ti, estavas a olhar para mim e encostaste a cabeça no teu banco. Tinhas um olhar tão penetrante e querido. Não consegui perceber se estavas com pena de mim ou se estavas surpreendido ou se o teu olhar apenas me dizia que sentias o mesmo. Olhámo-nos durante vários minutos. Sei que querias dizer-me coisas mas não podias. Ao fim de alguns minutos em silêncio conseguiste falar, disseste :"Não tem nada a ver com ser padre mas..." e terminaste a frase ali. Perguntei-te, numa de te incentivar a continuar, "mas...?" mas este "mas não tive resposta. Voltaste a olhar para mim com o mesmo olhar que tinhas feito minutos antes. Continuaste em silêncio mais alguns minutos. Respeitei-te. Voltaste a falar e disseste:" Não tem nada a ver com seres mais bonita ou menos bonita mas...". Voltei a perguntar-te: "mas....?" mas mais uma vez não obtive resposta. Mais uns minutos em silêncio. Perguntei-te se me podias contar o que te vai na cabeça e no coração, ao qual tu respondeste que não podias contar o que te vai na cabeça e no coração. Calei-me...continuámos a olhar-nos. O teu olhar entrava por mim adentro de uma forma inexplicável. Querias falar mas não podias. Mais uns minutos de silêncio...e começaste a perguntar coisas sobre a minha relação com o R. (o meu marido) e depois confessaste que sentes que estás a trair o amigo R. Na altura não compreendi muito bem o que aquilo que tinhas acabado de dizer significava. Sentirias tu o mesmo que eu e por isso sentias que estavas a trair o teu amigo? Sentirias que apenas e só pelo facto de te ter contado sentias que estavas a trair o teu amigo por lhe ocultares esta informação? Ainda hoje não consigo compreender mas, pelos factos que sucederam mais tarde, comecei a certa altura a acreditar que sentias o mesmo que eu e, por isso, sentias que estavas a trair o teu amigo. Terminámos a conversa e ligaste o carro. Nesse momento perguntei-te se já tinhas passado por alguma situação destas, ao qual tu me respondeste: "Eu sou um Dom Juan, um pinga amor" e riste-te. Estas palavras atingiram-me o peito de tal forma que parecia que me estavas a esfaquear o coração. O meu coração encheu-se de ciúme. Imaginei que já tinhas tido conversas destas com muitas mulheres e que eu era apenas mais uma. Dias mais tarde, comecei a acreditar que esta era uma afirmação irónica. Que nunca tinhas passado por algo assim e que estavas apenas a brincar comigo com ironia. Paraste o teu carro perto do meu carro. Despedi-me de ti e abracei-te mas o meu abraço não foi correspondido. Estava a abraçar um poste de metal, frio e rígido. Não me acolheste no teu peito e os teus braços não me envolveram. Doeu-me muito. Senti-me completamente humilhada. Larguei-te, olhei-te nos olhos e perguntei-te: "Vais mesmo fazer-me isto?" e respondeste: "Sim!". Voltei a perguntar-te o mesmo e deste-me a mesma resposta. Como não acreditava no que me estavas a fazer perguntei uma terceira vez e a tua resposta foi a mesma. Virei costas e sai do teu carro. Estava muito desiludida e triste.

    Largaste-me no meu carro e foste embora. Chorei todo o caminho mas esta conversa era inevitável. 

    No dia seguinte ainda não acreditava no que me tinhas feito. A mágoa era enorme. O meu coração estava desfeito. Mandei-te uma mensagem a dizer-te isso mesmo e que o que me tinhas feito não se faz a ninguém, muito menos a um amigo. Claro que não me respondeste mas aquela conversa era inevitável. 

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